terça-feira, 6 de março de 2012

Lembrança de Infância


 
Uma lembrança de minha infância que sempre me acompanhou e sempre me intrigou, era a lembrança de um determinado lugar. Lá pelos meus cinco anos de idade era muito forte esse recordar. Ficava muito tempo querendo me lembrar de onde eu tinha visto aquele lugar. Pensava, pensava, mas nada de conseguir. Essa lembrança me acompanha até hoje. Só que naquela época, era bem mais intensa.
       Quando estava com sete anos, cheguei a perguntar ao meu pai, se ele tinha me levado a algum lugar daquele tipo ou passado comigo em algum lugarejo parecido. Ele disse-me que não. Que nunca estivemos em nenhum lugar como aquele. Eu não acreditava. Achava ter ido e que conhecia muito bem esse lugar. Outras vezes achava que tinha sonhado. Porém, logo descartava a ideia.
         O tempo passou, mas a lembrança ficou. Hoje, adulta, penso de outra forma. Quem sabe é a lembrança de uma vida passada. Analiso e acho que sim, pois na lembrança eu era criança e justamente na fase de criança, essa lembrança era mais constante.  Na adolescência também, mas não com a mesma intensidade.
         Nessa época eu tinha uma atração muito forte pelo mar. Na lembrança também, o ponto de base era o mar. Dos meus treze anos em diante o mar me fascinava. Eu me lembro que na parte da manhã eu estudava no colégio; chegava em casa almoçava, dava um tempo e depois saía, com  um caderno e um lápis para ver o mar.
Chegando lá, sentava em um banco do jardim de frente para o mar, ficava olhando a areia, o mar, o céu e o sol. Eu ficava maravilhada com o brilho da areia. O sol na areia fazia rebrilhar como se fossem pedrinhas de brilhantes. Era lindo!
         A união - da areia com o mar - era perfeita. O mar vinha beijar a areia. O vai e vem das ondas, com suas águas ora verdes ora azuis, e o estourar das ondas deixando um véu de espumas brancas a se desfazer.
        Eu me perdia diante de tanta beleza. Deixava-me levar, naquele vai e vem. As águas iam de encontro com o céu, e se fundiam naquele infinito. Juntando céu e mar. O verde azulado das águas com o azul do céu, davam expansão ao infinito. As nuvens brancas como a neve, pareciam bailar, com suas formas mutantes, representavam figuras de belas imagens.
    O sol, grande Rei, com sua luz maravilhosa, vinha aquecer e dar brilho a toda natureza. E nessa junção, eu ali sentada no banco do jardim da praia, ficava horas e horas sem perceber.
     Sabia que havia várias pessoas – babás com crianças, pessoas de idade, crianças e jovens. Porém eu não percebia ninguém, nem sequer os via passar na minha frente.
       Havia dias em que eu escrevia alguma coisa no caderno. Sempre sobre sentimentos, algo que gostei ou não gostei, algo que me magoou ou me deixou muito feliz. Expressava meus sentimentos sobre crianças e o amor de modo geral. Mas não era sempre que isso acontecia. O meu entrosamento era com o mar, e toda a natureza em sua volta.
     Mas depois de um tempo, necessitava voltar correndo para casa, pois minha mãe brigava comigo. Já estava achando que eu tinha um namorado escondido. Mal sabia ela, que eu realmente estava namorando, porém com o mar.
     Sem eu perceber, esta minha fascinação pelo mar, ia ao encontro de minha lembrança. Só que naquela época eu não a associava. Depois mais adulta, aí sim, houve a ligação.
         Hoje, ao fechar os olhos, posso rever o lugar muito nitidamente, posso ver os detalhes e a cor. Essa minha lembrança parece uma tela pintada a óleo, muito significativa para mim.
         Lembro-me assim:
        Vejo-me em um lugar de mar, que não é plano. É um lugarejo que tem ancoradouro e seu chão é um morro. O mar vem em seu encontro e a água fica abaixo de sua base há uns quatro metros. Foi levantada uma parede de pedra em toda a extensão do morro. Na parte de cima, do lado que dá para o mar, também tem pedras. O resto é todo revestido de toras de madeira, formando uma grande rua para quem ancora e desce ali.
        Tem barcos grandes e pequenos. Normalmente saem de manhã antes do nascer do sol e só voltam perto do anoitecer. Mais adiante, em frente ao porto, tem um morro. A cidade não fica à beira mar. Ela é escondida.  Do porto não dá para ver a cidade (digo cidade, mas na verdade parece uma vila, só que tem muitas casas e ruas).
        Do ponto do porto onde estou, indo para o lado esquerdo, um pouco afastado, há uma casa de frente para o mar. Nesse porto, eu me vejo sentada de frente para o mar. Olho o mar, o céu, o sol e fico horas e horas contemplando essa beleza.
        Nessa lembrança, vejo-me criança de uns seis a oito anos. Uso um calção de cor marrom, com uma tira que vem de trás e abotoa na frente do lado contrário. O calção vai até abaixo do joelho. Uso uma camisa branca de manga curta, estou descalça. Tenho cabelos loiros, curtos, encaracolados. Bochechas vermelhas e olhos claros. Só não sei dizer se sou menino ou menina. Não consigo definir.
        Porém, sei que sou uma criança triste. Fico nesse porto, sentada, com as pernas para o mar, olhando o infinito, recebendo o carinho do sol através do seu calor. Mas tenho uma melancolia muito grande no coração. Parece que espero algo. Sinto falta de alguma coisa, ou de alguém. Não sei explicar. Toca muito fundo o meu coração. Esta é a minha lembrança.
        Comparando esta lembrança e os valores de minha adolescência, percebo a união espontânea. Revivi a mesma beleza, porém, sem melancolia, e até hoje ainda me fascina muito, a areia, o mar, o céu e o sol.
Beth

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