Uma lembrança de minha infância
que sempre me acompanhou e sempre me intrigou, era a lembrança de um
determinado lugar. Lá pelos meus cinco anos de idade era muito forte esse
recordar. Ficava muito tempo querendo me lembrar de onde eu tinha visto aquele
lugar. Pensava, pensava, mas nada de conseguir. Essa lembrança me acompanha até
hoje. Só que naquela época, era bem mais intensa.
Quando estava com sete anos, cheguei a perguntar ao meu pai,
se ele tinha me levado a algum lugar daquele tipo ou passado comigo em algum
lugarejo parecido. Ele disse-me que não. Que nunca estivemos em nenhum lugar como
aquele. Eu não acreditava. Achava ter ido e que conhecia muito bem esse lugar. Outras
vezes achava que tinha sonhado. Porém, logo descartava a ideia.
O tempo passou, mas a lembrança ficou. Hoje, adulta, penso
de outra forma. Quem sabe é a lembrança de uma vida passada. Analiso e acho que
sim, pois na lembrança eu era criança e justamente na fase de criança, essa
lembrança era mais constante. Na
adolescência também, mas não com a mesma intensidade.
Nessa época eu tinha uma atração muito forte pelo mar. Na
lembrança também, o ponto de base era o mar. Dos meus treze anos em diante o
mar me fascinava. Eu me lembro que na parte da manhã eu estudava no colégio;
chegava em casa almoçava, dava um tempo e depois saía, com um caderno e um lápis para ver o mar.
Chegando lá, sentava em um
banco do jardim de frente para o mar, ficava olhando a areia, o mar, o céu e o
sol. Eu ficava maravilhada com o brilho da areia. O sol na areia fazia
rebrilhar como se fossem pedrinhas de brilhantes. Era lindo!
A união - da areia com o mar - era perfeita. O mar vinha
beijar a areia. O vai e vem das ondas, com suas águas ora verdes ora azuis, e o
estourar das ondas deixando um véu de espumas brancas a se desfazer.
Eu me perdia diante de tanta beleza. Deixava-me levar,
naquele vai e vem. As águas iam de encontro com o céu, e se fundiam naquele
infinito. Juntando céu e mar. O verde azulado das águas com o azul do céu,
davam expansão ao infinito. As nuvens brancas como a neve, pareciam bailar, com
suas formas mutantes, representavam figuras de belas imagens.
O sol, grande Rei, com sua luz maravilhosa, vinha aquecer e
dar brilho a toda natureza. E nessa junção, eu ali sentada no banco do jardim
da praia, ficava horas e horas sem perceber.
Sabia que havia várias pessoas – babás com crianças, pessoas
de idade, crianças e jovens. Porém eu não percebia ninguém, nem sequer os via
passar na minha frente.
Havia dias em que eu escrevia alguma coisa no caderno.
Sempre sobre sentimentos, algo que gostei ou não gostei, algo que me magoou ou
me deixou muito feliz. Expressava meus sentimentos sobre crianças e o amor de
modo geral. Mas não era sempre que isso acontecia. O meu entrosamento era com o
mar, e toda a natureza em sua volta.
Mas depois de um tempo, necessitava voltar correndo para casa, pois minha mãe brigava comigo. Já estava achando que eu tinha um namorado escondido. Mal sabia ela, que eu realmente estava namorando, porém com o mar.
Mas depois de um tempo, necessitava voltar correndo para casa, pois minha mãe brigava comigo. Já estava achando que eu tinha um namorado escondido. Mal sabia ela, que eu realmente estava namorando, porém com o mar.
Sem eu perceber, esta minha fascinação pelo mar, ia ao
encontro de minha lembrança. Só que naquela época eu não a associava. Depois
mais adulta, aí sim, houve a ligação.
Hoje, ao fechar os olhos, posso rever o
lugar muito nitidamente, posso ver os detalhes e a cor. Essa minha lembrança
parece uma tela pintada a óleo, muito significativa para mim.
Lembro-me assim:
Vejo-me em um lugar de mar, que não é plano. É um lugarejo
que tem ancoradouro e seu chão é um morro. O mar vem em seu encontro e a água
fica abaixo de sua base há uns quatro metros. Foi levantada uma parede de pedra
em toda a extensão do morro. Na parte de cima, do lado que dá para o mar,
também tem pedras. O resto é todo revestido de toras de madeira, formando uma
grande rua para quem ancora e desce ali.
Tem barcos grandes e pequenos. Normalmente saem de manhã antes
do nascer do sol e só voltam perto do anoitecer. Mais adiante, em frente ao
porto, tem um morro. A cidade não fica à beira mar. Ela é escondida. Do porto não dá para ver a cidade (digo
cidade, mas na verdade parece uma vila, só que tem muitas casas e ruas).
Do ponto do porto onde estou, indo para o lado esquerdo, um
pouco afastado, há uma casa de frente para o mar. Nesse porto, eu me vejo
sentada de frente para o mar. Olho o mar, o céu, o sol e fico horas e horas
contemplando essa beleza.
Nessa lembrança, vejo-me criança de uns seis a oito anos.
Uso um calção de cor marrom, com uma tira que vem de trás e abotoa na frente do
lado contrário. O calção vai até abaixo do joelho. Uso uma camisa branca de
manga curta, estou descalça. Tenho cabelos loiros, curtos, encaracolados.
Bochechas vermelhas e olhos claros. Só não sei dizer se sou menino ou menina.
Não consigo definir.
Porém, sei que sou uma criança triste. Fico nesse porto,
sentada, com as pernas para o mar, olhando o infinito, recebendo o carinho do
sol através do seu calor. Mas tenho uma melancolia muito grande no coração. Parece
que espero algo. Sinto falta de alguma coisa, ou de alguém. Não sei explicar. Toca
muito fundo o meu coração. Esta é a minha lembrança.
Comparando esta lembrança e os valores de minha adolescência,
percebo a união espontânea. Revivi a mesma beleza, porém, sem melancolia, e até
hoje ainda me fascina muito, a areia, o mar, o céu e o sol.
Beth
Nenhum comentário:
Postar um comentário