terça-feira, 1 de maio de 2012

Só Deus Sabe

          Foi por volta de 1970, na época eu estava com 19 anos, quando me aconteceu esta experiência que se tornaria maravilhosa. Eu morava em casa geminada e, mudara uma família para a casa junto a minha. Era uma família sem ocupação definida. Eles davam muitas festas, vinham muitas pessoas e ficavam até altas horas da madrugada. Em muitas tardes também se reuniam; tocavam violão, tambor, cantavam junto com a vitrola, tocavam em alto volume. Era uma anarquia. Não tinham hora para tocar, não tinham respeito pelos vizinhos, e nem por eles mesmos, pois, muitas vezes, brigavam e se agrediam.
A vida dos moradores das imediações mudou, não tínhamos tranquilidade. A vida ficou terrível. Eu ainda saia de casa para trabalhar, porém, minha mãe, coitada, ficava o dia inteiro em casa. Chegou a tal ponto que, ela não aguentava mais ouvir o barulho, nem a música. Ficou tão descontrolada, que um dia quando cheguei em casa depois do trabalho, encontrei-a batendo com a cabeça na parede da cozinha e, dizia: - quero morrer, quero morrer. Não consigo mais viver deste jeito. Eu a segurei e com muito custo consegui acalmá-la. Fiquei desesperada. Como eu iria fazer? Precisava trabalhar e tinha receio que ela cometesse uma loucura.
O desespero aumentava porque muitas vezes ela dizia: - Qualquer dia desses vou à praia, vou mar adentro até me afogar, assim acaba tudo. Eu não tinha mais sossego, não sabia mais o que fazer.
Um dia chamei o meu vizinho até minha casa, expliquei-lhe o que estava acontecendo. Disse-lhe que tudo o que eles diziam em sua casa era ouvido nitidamente por nós. Pedi pelo amor de Deus que eles parassem ou diminuíssem a frequência com que tocavam, porque minha mãe poderia vir a cometer uma loucura. Ele prometeu que iria moderar, mostrou consideração, porém foi só nessa hora, depois não houve mais jeito. Eu e os moradores da rua fizemos um abaixo assinado, fomos à delegacia dar queixa; não teve jeito.
Muitas vezes eu saia de casa às 23h30, ligava para a policia; eles diziam que iriam até o local. Às vezes iam, mas só passavam, não faziam nada. Eu me considerava perdida.
À noite, na hora de dormir, tínhamos que colocar algodão no ouvido, para diminuir um pouco o som. Eu rezava, chorava, implorava a Deus para que eles parassem, porém dia após dia, era tudo igual.
Saía para trabalhar com o coração na mão. Ao retornar para casa, procurava minha mãe e só ao vê-la eu sossegava, era um tormento.
         Eu não tinha pai, ele falecera quando eu tinha 11 anos. Tinha dois irmãos casados, eles cuidavam de suas vidas e de seus compromissos; eu não podia contar com eles. Eu só tinha minha mãe, que era tudo para mim, se a perdesse não sei o que seria de mim. Foi nessa angústia total, após cinco anos, que Deus com pena de mim, mandou-me a Luz.
         Numa noite ao chegar em casa, depois do trabalho, percebi que a casa do vizinho estava naquela bagunça: o som da vitrola nas alturas, o pessoal cantava e batucava junto com o som, gritavam, batiam palmas; um caos completo.
         Fomos jantar e tentamos ver televisão. Mais tarde fomos dormir. Eu e minha mãe dormíamos juntas eu não tinha coragem de deixá-la dormir sozinha.  Ao menor movimento eu acordava e lhe atendia no que fosse preciso. Naquela noite eu estava desesperada. Rezei, pedi a Deus, pedi aos guias de luz, ao meu Anjo de Guarda, pedi a todos que eu sabia; eu não conseguia dormir.
Não sei quantas horas se passaram, eu estava deitada de barriga para cima. De repente, no meio de minhas súplicas, eu comecei a flutuar. Meu corpo flutuava na horizontal, eu já estava no meio da altura do quarto, quando olhei para baixo e vi na cama meu corpo deitado. Entendi e não fiquei com medo. Sabia que na cama estava o meu corpo de carne e o que flutuava era outro corpo. O corpo do meu espírito.
         Ao olhar para cima, vi um senhor que me transmitiu muita paz. Era um carinho como se fosse de pai. Eu me sentia tão amparada, tão protegida, como há muito eu não me sentia. Ele era forte, claro, usava uma túnica toda branca com manga comprida, larga no pulso. Eu o via, porém sua fisionomia tinha uma pequena névoa que não deixava perceber todos os traços do seu rosto. Mas eu me identificava totalmente com ele. Em um movimento ele me estendeu a mão. Eu me ergui na vertical e lhe atendi prontamente. Passei pela laje do quarto, passei pelo telhado. Estava no céu. Vi toda minha cidade de Santos.
         Vi toda a Ponta da Praia, toda orla, a areia, até a ilha Porchat, todo o cais (era estranho, ao olhar parecia-me uma lente, pois tudo que eu via estava perto de mim, porém eu estava muito longe).
         O senhor ao meu lado nada fez. Deixou que eu admirasse tudo, deu-me um tempo até passar minha a euforia. Ele não falava, mas eu sabia tudo o que ele queria me dizer. Vinha tudo a minha mente.
         Quando já me encontrava refeita, ele fez uma menção com a mão direita e mostrou-me a casa geminada ao lado da minha. Olhei para a casa - de repente vi como se não tivesse telhado, parecia aquela casa de boneca, em que se veem todos os cômodos, olhando por cima. Em um dos quartos estava o pessoal da casa; uns sentados na cama, outros no chão. Um tocava violão, outro tambor. As aparências deles eram muito esquisitas. Olhares parados, movimentos de robôs, pareciam que estavam drogados. Era uma imagem deprimente. Esta imagem me tocou profundamente o coração, fiquei muito triste.
         O Senhor então me disse: - Filha, eles não tem nada para oferecer. Eles são tão pobres de espírito! Aquilo me chocou profundamente. Naquele instante eu entendi que, eu sim é que deveria ajudar.
         O que aconteceu em seguida, eu não me lembro. Só me lembro de voltar para o meu quarto, flutuar na horizontal e ir voltando devagar para o meu corpo. Lembrei-me de tudo que me havia acontecido, jamais esqueci. Desse dia em diante, passei a rezar muito pelos meus vizinhos. Toda hora que me lembrava, rezava.
         Acho que eles jamais teriam condições de atender a qualquer pedido do tipo que eu lhes havia feito. Quando eles entravam naquele transe, não tinham nenhuma condição de saber o que faziam ou percepção de como ficavam. Nesses momentos estavam totalmente possuídos.
         Mas, a partir dessa experiência maravilhosa, eu e minha mãe, com orações e a ajuda que recebemos das forças espirituais, soubemos ir vivendo com mais controle e menos aflição, pois sabíamos que nunca estávamos sozinhas. Eles ainda moraram mais dois anos ao nosso lado.
No fim, as festas foram diminuindo e as reuniões também. Os amigos se afastaram; tudo mudou. Eles não tinham mais como se manterem e foram despejados.
         Um dia, quando cheguei do trabalho, soube que eles haviam se mudado. Quem sabe, eu tinha algum resgate a cumprir, durante esses sete anos!
SÓ DEUS SABE!
Beth

Um comentário: