A
vida dos moradores das imediações mudou, não tínhamos tranquilidade. A vida
ficou terrível. Eu ainda saia de casa para trabalhar, porém, minha mãe,
coitada, ficava o dia inteiro em casa. Chegou a tal ponto que, ela não aguentava
mais ouvir o barulho, nem a música. Ficou tão descontrolada, que um dia quando
cheguei em casa depois do trabalho, encontrei-a batendo com a cabeça na parede
da cozinha e, dizia: - quero morrer, quero morrer. Não consigo mais viver deste
jeito. Eu a segurei e com muito custo consegui acalmá-la. Fiquei desesperada.
Como eu iria fazer? Precisava trabalhar e tinha receio que ela cometesse uma
loucura.
O
desespero aumentava porque muitas vezes ela dizia: - Qualquer dia desses vou à
praia, vou mar adentro até me afogar, assim acaba tudo. Eu não tinha mais sossego,
não sabia mais o que fazer.
Um
dia chamei o meu vizinho até minha casa, expliquei-lhe o que estava
acontecendo. Disse-lhe que tudo o que eles diziam em sua casa era ouvido
nitidamente por nós. Pedi pelo amor de Deus que eles parassem ou diminuíssem a
frequência com que tocavam, porque minha mãe poderia vir a cometer uma loucura.
Ele prometeu que iria moderar, mostrou consideração, porém foi só nessa hora,
depois não houve mais jeito. Eu e os moradores da rua fizemos um abaixo
assinado, fomos à delegacia dar queixa; não teve jeito.
Muitas
vezes eu saia de casa às 23h30, ligava para a policia; eles diziam que iriam
até o local. Às vezes iam, mas só passavam, não faziam nada. Eu me considerava
perdida.
À
noite, na hora de dormir, tínhamos que colocar algodão no ouvido, para diminuir
um pouco o som. Eu rezava, chorava, implorava a Deus para que eles parassem,
porém dia após dia, era tudo igual.
Saía
para trabalhar com o coração na mão. Ao retornar para casa, procurava minha mãe
e só ao vê-la eu sossegava, era um tormento.
Eu não tinha pai, ele falecera quando
eu tinha 11 anos. Tinha dois irmãos casados, eles cuidavam de suas vidas e de
seus compromissos; eu não podia contar com eles. Eu só tinha minha mãe, que era
tudo para mim, se a perdesse não sei o que seria de mim. Foi nessa angústia
total, após cinco anos, que Deus com pena de mim, mandou-me a Luz.
Numa
noite ao chegar em casa, depois do trabalho, percebi que a casa do vizinho
estava naquela bagunça: o som da vitrola nas alturas, o pessoal cantava e
batucava junto com o som, gritavam, batiam palmas; um caos completo.
Fomos jantar e tentamos ver televisão.
Mais tarde fomos dormir. Eu e minha mãe dormíamos juntas eu não tinha coragem
de deixá-la dormir sozinha. Ao menor
movimento eu acordava e lhe atendia no que fosse preciso. Naquela noite eu
estava desesperada. Rezei, pedi a Deus, pedi aos guias de luz, ao meu Anjo de
Guarda, pedi a todos que eu sabia; eu não conseguia dormir.
Não
sei quantas horas se passaram, eu estava deitada de barriga para cima. De
repente, no meio de minhas súplicas, eu comecei a flutuar. Meu corpo flutuava
na horizontal, eu já estava no meio da altura do quarto, quando olhei para
baixo e vi na cama meu corpo deitado. Entendi e não fiquei com medo. Sabia que
na cama estava o meu corpo de carne e o que flutuava era outro corpo. O corpo
do meu espírito.
Ao olhar para cima, vi um senhor que me
transmitiu muita paz. Era um carinho como se fosse de pai. Eu me sentia tão
amparada, tão protegida, como há muito eu não me sentia. Ele era forte, claro,
usava uma túnica toda branca com manga comprida, larga no pulso. Eu o via,
porém sua fisionomia tinha uma pequena névoa que não deixava perceber todos os
traços do seu rosto. Mas eu me identificava totalmente com ele. Em um movimento
ele me estendeu a mão. Eu me ergui na vertical e lhe atendi prontamente. Passei
pela laje do quarto, passei pelo telhado. Estava no céu. Vi toda minha cidade
de Santos.
Vi toda a Ponta da Praia, toda orla, a
areia, até a ilha Porchat, todo o cais (era estranho, ao olhar parecia-me uma
lente, pois tudo que eu via estava perto de mim, porém eu estava muito longe).
O senhor ao meu lado nada fez. Deixou que
eu admirasse tudo, deu-me um tempo até passar minha a euforia. Ele não falava,
mas eu sabia tudo o que ele queria me dizer. Vinha tudo a minha mente.
Quando já me encontrava refeita, ele
fez uma menção com a mão direita e mostrou-me a casa geminada ao lado da minha.
Olhei para a casa - de repente vi como se não tivesse telhado, parecia aquela
casa de boneca, em que se veem todos os cômodos, olhando por cima. Em um dos quartos
estava o pessoal da casa; uns sentados na cama, outros no chão. Um tocava violão,
outro tambor. As aparências deles eram muito esquisitas. Olhares parados,
movimentos de robôs, pareciam que estavam drogados. Era uma imagem deprimente. Esta
imagem me tocou profundamente o coração, fiquei muito triste.
O Senhor então me disse: - Filha, eles
não tem nada para oferecer. Eles são tão pobres de espírito! Aquilo me chocou
profundamente. Naquele instante eu entendi que, eu sim é que deveria ajudar.
O que aconteceu em seguida, eu não me
lembro. Só me lembro de voltar para o meu quarto, flutuar na horizontal e ir
voltando devagar para o meu corpo. Lembrei-me de tudo que me havia acontecido,
jamais esqueci. Desse dia em diante, passei a rezar muito pelos meus vizinhos.
Toda hora que me lembrava, rezava.
Acho que eles jamais teriam condições de
atender a qualquer pedido do tipo que eu lhes havia feito. Quando eles entravam
naquele transe, não tinham nenhuma condição de saber o que faziam ou percepção
de como ficavam. Nesses momentos estavam totalmente possuídos.
Mas, a partir dessa experiência
maravilhosa, eu e minha mãe, com orações e a ajuda que recebemos das forças
espirituais, soubemos ir vivendo com mais controle e menos aflição, pois
sabíamos que nunca estávamos sozinhas. Eles ainda moraram mais dois anos ao
nosso lado.
No
fim, as festas foram diminuindo e as reuniões também. Os amigos se afastaram;
tudo mudou. Eles não tinham mais como se manterem e foram despejados.
Um dia, quando cheguei do trabalho,
soube que eles haviam se mudado. Quem sabe, eu tinha algum resgate a cumprir,
durante esses sete anos!
SÓ DEUS SABE!
Beth
Que experiência maravilhosa. Vcs foram guerreiras!!!
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